Júlio César Ferreira @ 18:48

Sab, 15/08/09

O culto de S. Bento fornece-nos um caso paradigmático da reli­gião católica onde, à luz da antropologia, é fácil verificar o distanciamento entre religião oficial, controlada e fiscalizadora, e religião popular, espontânea e anómica.

A religiosidade popular, por vezes bastante ambígua pois dirigindo-se às forças misteriosas quer do bem quer do mal, é fundamentalmente interesseira, epidérmica, sem teorias, sempre baseada no automatismo psíquico e corporal e em mecanismos lógicos inconscientes.
 
Vejamos, então, como funciona o culto popular de S. Bento.
 
A religião católica oficial, através do culto litúrgico, honra S. Bento com duas festas: a 21 de Março, festa do Trânsito, isto é, da morte de S. Bento — é o S. Bento da Primavera ou do cuco, como diz o povo; â 11 de Julho, festa da Solenidade ou patrocínio, isto é, da Trasladação das Relíquias, agora o S. Bento, Padroeiro da Europa, — e que é o S. Bento do Verão ou das Pêras (pedras) como diz o mesmo povo.
O culto de S. Bento, além das festas litúrgicas, caracteriza-se pelas romarias e promessas, maneira religiosa de «pagar» ou satisfazer as promessas nos lugares onde é, popularmente, venerado e não propriamente nos mosteiros: S. Bento da Porta Aberta, Geres; S. Bento da Porta Aberta, Cossourado — Paredes de Coura; S. Bento do Ermelo, Soajo; S. Bento do Cando, Gavieira — Arcos de Valdevez; S. Bento de Fiães — Melgaço; S. Bento de Seixas, Caminha; S, Bento de Vairão, Vila do Conde; S. Bento da Várzea, Barcelos; S. Bento do Hospital, Braga; S. Bento de Donim (antigo Couto de Tibães), Póvoa de Lanhoso; S. Bento de Santo Tirso; S. Bento de Abadim, Fafe; S. Bento das Pêras, Vizela; S. Bento das Pêras, Rio Tinto; S. Bento em S. Cosme do Vale, V. N. de Famalicão.
Quanto às promessas, há a salientar o, cada vez mais raro, costume dos romeiros, agrupamentos de pessoas que, a cantar versos gratulatórios, acompanham algum miraculado à capela onde, com vestes de promessa, vai agradecer ao santo:
 
«O S. Bento milagroso,
 nós cá vimos a chegar.
 Botai-nos a vossa bênção
 Lá de riba do altar!
 
Ó S. Bento milagroso,           
Eu aqui vos venho ver.
Por me dardes a saúde
Quando eu estava a morrer»
 
As ofertas a S. Bento devem ser de coisas brancas, ovos, açúcar, sal, farinha, moedas brancas (prata), e cravos, quando se trata de verrugas ou cravos. No alto do monte de São Bento das Pêras (Pedras), sobranceiro a Vizela, e cujo documento mais antigo com o nome de «Monte de S. Bento» — Mons de Sancto Benedicto — remonta a l 195, ainda encontramos o costume de, por promessa, se caiar de branco os pene­dos que, como quistos graníticos, circundam a Capela do milagroso S. Bento.
É, portanto, um santo milagreiro, especialmente invocado, por razões terapêuticas, para curar doenças da pele e males ruins.
Mas S. Bento é santo mesmo e também particular advogado da convivência pacífica entre vizinhos. Daí a razão porque, à noite, sobre­tudo no Entre Douro e Minho, as mães de tradição mais devota, acres­centam, no fim das rezas em família, a jaculatória popular: «São Ben­tinho milagroso nos livre das coisas ruins, dos males desconhecidos e dos maus vizinhos da porta!»
 
In.O Culto Popular de S. Bento, de Geraldo J. A. Coelho Dias
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Num dos locais mais carismáticos e queridos de toda esta imensa região, fica este altaneiro e granítico monte, sobranceiro a Vizela, donde se avistam as paisagens deslumbrantes do Vale do Vizela e, "até o mar em dias límpidos"
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